A política, a militância e o tabu

Hoje, independentemente do dia em que ler este artigo, irá ouvir nas TV’s e Jornais, ou pura e simplesmente na rua, alguém a dizer mal dos Políticos.
Há atualmente um sentimento generalizado de descrença na figura do “Político” que leva a que qualquer notícia que venha piorar a questão, já não surpreende ninguém, mas mexe com o público e por é vista e lançada vezes sem conta e tantas vezes sem a devida correção.

Mas, fiz a introdução nestes moldes porquê? Porque considero que este sentimento generalizado tem arrastado a política e mais nomeadamente a militância para um campo de “desafio” nunca visto. Atualmente ser militante de um partido é cada vez mais cadastro e não Curriculum, disto tem culpa os Partidos, as pessoas, mas, também o sistema.

Os partidos porque não sabem gerir ou reinventar a sua gestão de forma a criar transparência (a necessária) e abertura ao público, claro está, que enquanto militantes sabemos que há informação que não pode numa 1.ª fase ser de conhecimento público, mas, há outra que o deveria ser, nem que fosse temporizada de forma a não comprometer possíveis estratégias políticas, acredito que por aqui conseguiríamos afastar alguns fantasmas da opinião pública.

“Acontece que, perante a atual generalização do que é a política, muitos partidos que outrora acolhiam no seu seio “Os Melhores” de cada cidade nos mais variados quadrantes sociais e académicos, viram as suas bases enfraquecidas e com dificuldade em regenerar muito devido à necessidade dessas pessoas de se afastar do tabu que é fazer política em Portugal neste momento.”

As pessoas, todo e qualquer partido será maior, mais comprometido, mais presente, quanto mais e melhores militantes e simpatizantes tiver. Acontece que, perante a atual generalização do que é a política, muitos partidos que outrora acolhiam no seu seio “Os Melhores” de cada cidade nos mais variados quadrantes sociais e académicos, viram as suas bases enfraquecidas e com dificuldade em regenerar muito devido à necessidade dessas pessoas de se afastar do tabu que é fazer política em Portugal neste momento. Sim disse que era tabu, já explico adiante.

Por fim, mas talvez o maior culpado, “O Sistema”, no nosso país o sistema partidário geral funciona em moldes muito pouco sérios. Começando nas nomeações, passando pela facilidade em criar gabinetes e gabinetezinhos, passando pelas obras públicas estratégicas com “concursos” que em alguns casos quase roçam a adjudicação directa. Certo é que “lá pelo sistema ser mau tu podes não ser.”, no entanto, torna-se em alguns casos difícil e insustentável lutar contra o sistema, enfrentar lutas e guerras internas para manutenção das práticas habituais, meramente porque, “sempre se fez assim”.

E é para esta luta que muita gente já não se predispõe e acabam por se auto-excluir da política ou então limitar-se a exercer a mesma em posts de Facebook que até se podem tornais virais, mas não entram nos centros decisórios e por isso não fazem mudanças directas na vida do país e das pessoas.
Esta auto-exclusão retira muitos bons quadros na política e abre espaço para a ascensão e ganho de notoriedade dos players que se movimentam tal qual jiboias em busca de um lugar ao sol, e por consequência há uma perda de qualidade da classe política.

Esmiuçados os factores que transformaram e mantém a política como cadastro e não como currículo, retomo agora o termo que usei anteriormente, o “TABU”, em Portugal, no dito país das liberdades, há tabu de fazer política, conseguiram transformar um povo que até no café e em qualquer esquina discute os mais diversos assuntos, num país com aversão aos políticos e aos partidos.
E na minha opinião, esta transformação teve por culpa vários factores, que passarei a referenciar.

O primeiro deles devesse à procura excessiva de generalizar a política e com generalização da política quero referir-me ao chavão da “Pureza Ideológica” e ainda ao do “Fascismo”. Considero que os dois chavões são notórios na política portuguesa e também eles afastam as pessoas, ora vejamos, em Portugal agarrados ao fantasma do fascismo censuramos os partidos de centro a uma adesão moderada á direita, fizemo-lo, ninguém o assume mas aconteceu.
E isso nota-se sempre que um partido como o PPD-PSD que tem um eixo político bastante alargado procura recolocar-se onde tem eleitorado que é num centro-direita moderada mas com alas conservadoras, lá vem alguém acenar com a “Pureza ideológica” e com isso surfar e mexer no eleitorado com o fantasma do fascismo levando a que tanto militantes como até direções tremam e se questionem se vale a pena. Este constante fanatismo com a pureza ideológica, principalmente no binómio entre o centro e a direita, abre caminhos a partidos de extremas, e falo directamente do “Chega” por exemplo, que agarrou uma falange da direita, de forma um pouco populista é certo, mas, uma falange da direita que pelo quadro eleitoral se percebe que seria acessível a um PSD sem medo de abordar MODERADAMENTE a direita e algumas políticas de direita e com isso garantir não só essa falange eleitoral, como ainda, garantir um campo político moderado. E este medo e necessidade de pureza ideológica afasta as pessoas que gostam de política mas não gostam de “conversas de livros”.

Outro factor está na organização da sociedade e do quotidiano. Atualmente a sociedade vive numa constante sobrecarga, corremos constantemente, vivemos o stress como “não é defeito é feitio.”, e esta correria leva a que também não seja propício fazer política.
Não é atraente para um jovem, perder a um sábado 3h numa reunião, muitas vezes em sedes sem condições, para discutir política ou simplesmente para pensar o país.
Da mesma forma, que não é atraente para um gestor de empresas, dispensar da correria do seu dia, do seu tempo com a família, de tempo para pensar e fazer política para depois “Eles é que o ganham.”.
Esta constante correria do nosso quotidiano adjacente a ideia que se estabeleceu da classe política retira a pessoas da política, mas aqui meramente os partidos podem com mudanças internas fazer mudar o panorama.

Por fim, o último factor que considero importante é a falta de capacidade de compromisso.
Os portugueses, salvo raras excepções, não gostam de compromissos, não gostam de ter a “obrigação” de fazer qualquer coisa, e na política muitas vezes pela “subjectividade” das matérias tratadas, até se fica com o amargo de boca de “dedicação” para inglês ver, ainda menos se procuram comprometer. Esta questão tem um impacto brutal na vida dos partidos e reflexos imediatos na política, uma vez, a organização interna dos partidos, pelo menos dos grandes, assentava noutros tempos, na força da militância, no saber, nas ideias, este facto mobilizava as pessoas, o pai militava o filho, o filho nas conversas pós café do domingo militava um amigo e os partidos iam crescendo porque havia sentimento de pertença e para além disso as pessoas queriam pertencer. Atualmente não, atualmente é difícil assegurar militância é difícil contornar o sistema, os partidos e as pessoas é difícil demonstrar que a mudança só pode ser possível por dentro, é possível mostrar que o compromisso de passar umas horas semanais a discutir política é importante para o país, é difícil para mim imaginar um futuro risonho para os grandes partidos se não se reinventarem e voltarem a meter o centro nas pessoas, mas verdadeiramente.

Finalizando, caso tenha chegado ao fim, espero que tenha desde o início fixado a notícia de que se lembrou quando eu referi os ataques feitos pela comunicação a classe política, pense nessa notícia, pense no que faria para ela não existir, o que falhou? O que podia ter resultado? Como se teria evitado?
Se colocar a si próprio estas questões está a fazer política, está a pensar nas melhores soluções para os problemas apresentados, foi fácil certo?

Então não tenha medo de se juntar a mais que procuram as soluções e sobretudo, acreditar que fará a diferença, quanto mais não seja a expor e a perceber o que está mal.

Francisco Potier Meireles

JSD Coruche / Vogal da Comissão Política | JSD Distrital de Santarém