Aventuras da nossa política

Nos últimos 4 anos e meio temo-nos habituado aos mais diversos acontecimentos, uns mais bizarros, outros mais graves. De facto, não obstante deste carrossel de acontecimentos há dois fatores constantes e imutáveis: 1- António Costa é Primeiro Ministro ; 2- António Costa não tem qualquer tipo de responsabilidade sobre o sucedido. A título de ilustração, todos nos recordamos da gestão dos incêndios de 2017, do caso Tancos (embora ainda a decorrer o processo judicial), ou do teatro da ameaça de demissão na ‘crise’ dos professores. Vem este texto a propósito da mais recente polémica envolvendo António Costa e Mário Centeno acerca de mais uma injeção de capital no Novo Banco, desta feita no valor de 850 milhões de euros, cujo clímax foi atingido na noite de quarta-feira (13 de maio) com a reunião destes em S. Bento. Neste sentido, Mário Centeno foi atacado por todos os quadrantes da política nacional, por ter injetado o montante acima assinalado sem ter esperarado pelo resultado de uma auditoria que ainda está a decorrer, situação que o Primeiro Ministro prometeu no Parlamento que não aconteceria. Por mais paradoxal que possa parecer, o primeiro tiro pertenceu ao indefetível apoiante de António Costa, Rui Rio, que acusou o Ministro das Finanças de ‘deslealdade’ para com o Primeiro Ministro. De igual modo, seguiram-se um chorrilho de críticas, como as da inenarrável Mariana Mortágua do BE, por exemplo.

Perante esta situação, Costa parece indicar que a transferência dos 850 milhões foi feita à sua revelia, não tendo tido, supostamente, conhecimento dessa situação. Porém, perante uma operação que já estava prevista e contratualizada, sendo que já estava acordada desde 2014, tendo passado (parece-me óbvio e evidente) pela aprovação em Conselho de Ministros, Costa não sabia, Costa não tem qualquer responsabilidade. Com efeito, poder-se-á indagar se Mário Centeno pretende ir para o Banco de Portugal ou se está a prazo no Governo. Embora esse tipo de análise possa ser um bom passatempo, reservo-a para os tarólogos/comentadores dos jornais diários e semanais.

“No entanto, não será necessário ter uma estante cheia de livros em casa para perceber que António Costa se limitou a desresponsabilizar perante uma promessa que fez no Parlamento que sabia que não podia cumprir (há contratos a cumprir !!!), queimando Mário Centeno.”

No entanto, não será necessário ter uma estante cheia de livros em casa para perceber que António Costa se limitou a desresponsabilizar perante uma promessa que fez no Parlamento que sabia que não podia cumprir (há contratos a cumprir !!!), queimando Mário Centeno. A tudo isto, acrescem as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa a defender António Costa, numa relação que se tem pautado por calculismos mútuos, em que o primeiro, desde o início do seu mandato, salvo honrosas exceções como a questão premente dos sem-abrigo, só se tem preocupado numa reeleição em grande, se possível, superando os 70% de Mário Soares em 1991. De igual modo, também Rui Rio decidiu juntar-se à festa, pedindo sem reservas a demissão de Mário Centeno, isentando António Costa de qualquer justificação ou escrutínio. Tal situação é plenamente justificável para quem acha que fazer oposição, na conjuntura em que vivemos atualmente, não é ser patriota. Estamos conversados, portanto.

Por último, não sei o que vai acontecer a Mário Centeno no futuro, mas António Costa sai, uma vez mais, incólume de outra trapalhada sua, entre muitas que têm acontecido. Provavelmente Mário Centeno sai do governo até ao final do verão, situação essa que até pode ser agradável para os outros ministros que o acusam de ser ‘forreta’, mas não será certamente para os restantes portugueses, onde me incluo. Se calhar, o mais sensato para resolver esta situação e evitar futuras confusões até era colocar Pedro Nuno Santos a Ministro das Finanças, onde já não havia o problema das injeções no Novo Banco, ou na TAP, porque simplesmente o dinheiro não seria, de todo, aí aplicado. Nesse caso, a música aí seria outra, parecida com a da Internacional, talvez.

P.S- Enquanto escrevo este texto, o Primeiro Ministro acaba de falar sobre as conclusões do Conselho de Ministros relativamente às regras a adotar para a segunda fase do desconfinamento. Perante a pergunta de uma jornalista sobre a eventual ‘crise’ entre Centeno e Costa, este afirma que ‘não há crise, nem nano-crise’. Faz sentido, afinal, tudo não passou de um erro de comunicação. Andamos a brincar? Andamos.

Tiago Duarte

Secretário-Geral da JSD Tomar
Vice-Presidente da Mesa do Conselho Distrital | JSD Distrital de Santarém